quarta-feira, 23 de novembro de 2011

LUZ NAS TREVAS
Silvio Bugelli
Estamos na Era do Conhecimento, portanto, nada mais lógico do que toda a sociedade valorizar esta moeda de tão alto valor: o aprendizado. Entretanto, a supervalorização deste ativo tão importante pode trazer efeitos colaterais prejudiciais ao desenvolvimento pessoal e profissional de cada um. Mesmo que pareça estranho, isto pode acontecer!
O processo de aprendizado começa quando estamos conscientes de que não sabemos. Isto significa que precisamos assumir o oposto do conhecimento, que é o desconhecimento.
Geralmente há resistência em reconhecer, perante as outras pessoas, essa falta de conhecimento, pois a defesa do ego fala mais alto. Sem aceitar que não sabem, os indivíduos vivem nas trevas. Vivem a vida como sonâmbulos, sem ambições e sem o arejamento do aprendizado. Quando alguém está na escuridão, "não sabe que não sabe", vivendo, deste modo, de forma alienada.
No momento em que um feixe de luz dá sinais que um novo e grandioso mundo existe, passamos a perceber nossa falta de conhecimento. É a fase da tomada de consciência. Isto, porém, é pouco, caso não haja uma ação efetiva em busca do aprendizado.
O "saber que não se sabe" nos leva a uma decisão, pois este é um estágio transitório. As três diferentes situações que podem vir após a tomada de consciência são:
Apesar de conscientes, podemos ficar entorpecidos, confusos, sem ação e energia para ir de encontro ao conhecimento. Isto representa fazer a escolha pela paralisia. Geralmente, a falta de uma visão grandiosa, capaz de impulsionar a viagem em busca do aprendizado, é força ausente e, assim, passamos a viver com desânimo, pois mesmo sabendo da necessidade de aprimorar conhecimentos, nos sentimos incapazes de realizar. Este estado não cria movimento e gera angústia, não havendo evolução pessoal.
Um segundo caminho é o da pré-potência, e representa assumir o cinismo. Para defender o ego e a alta-estima (não confundir com auto-estima) mesmo sabendo que não sabe, passa-se a viver "a verdade de sabe-tudo", olhando com desdém aquele que aprende. A ausência de valores éticos como verdade, integridade, tolerância, humildade, entre outros, é o grande causador da vida em ilusão, uma mentira para si mesmo.
Uma terceira via é viver como um eterno aprendiz. Para isso, precisamos desenvolver o autoconhecimento com a clareza do "sei que não sei". Reconhecendo que tudo o que é vivo precisa constantemente se alimentar, para mantermos nossas batidas cardíacas de conhecimentos, devemos viver iluminados com a fome do aprender.
A Vida de Aprendiz representa fazer uma escolha: viver como protagonista em um mundo repleto de expectadores. É claro que para cada escolha existe um preço a ser pago:


- O preço das trevas é a impotência
- O preço da paralisia é a depressão
- O preço da "pré-potência" é o isolamento
- O preço da Vida de Aprendiz é a ansiedade, pois sempre existirão novas coisas para aprender.

Todos nós sabemos do nosso "saldo atual" e da nossa capacidade de "investimento", portanto, o preço a ser pago é uma questão de escolha de cada um!

MEU IDEAL SERIA ESCREVER...

Rubem Braga

E quando todos me perguntassem -- "mas de onde é que você tirou essa história?" -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...
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Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

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Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- "mas essa história é mesmo muito engraçada!".

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E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou
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Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

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 E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.



MEU IDEAL SERIA ESCREVER...
Rubem Braga



Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- "mas essa história é mesmo muito engraçada!".

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".

E quando todos me perguntassem -- "mas de onde é que você tirou essa história?" -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.




A crônica acima foi extraída do livro "A traição das elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1967, pág. 91.

MEU IDEAL SERIA ESCREVER...
Paulinho Rogério
Meu ideal seria escrever sobre um país mais alegre, sem corrupção, onde todos os políticos cumprissem as promessas que são feitas. Onde nossos pais fossem mais compreensíveis, que nossos amigos fossem mais fiéis.
Mas como nem tudo é como a gente espera, eu vou ter que escrever sobre um país inteiramente poluído, em todos os sentidos, da poluição visual, até a poluição de grandes fábricas que acabam com a camada de ozônio.  Falarei também de pais que vivem trabalhando e não têm mais tempo para os filhos; de maridos ausentes em casa; de esposas que, com os maridos ausentes, arrumam amantes; de filhos que não entendem os pais, acham que  seu “mundinho” é tudo, e não olham ao seu redor; de amigos que, na sua frente dizem: “To contigo...”, mas na primeira briga, param de se falar; de pessoas que, por mais que pareçam felizes, usam mascaras com um sorriso e um belo “bom dia”, mas  por baixo dessas mascaras estão ardendo em tristeza, de infelicidade.
Como não custa sonhar, meu ideal ainda seria escrever  de um lugar onde não existam divórcios, falsidade, dores, corações partidos.  Mas só exista amor, carinho, bondade e tudo de bom, onde todas as mascaras da vida sejam arrancadas e que as pessoas sejam realmente felizes.

NOSSO IDEAL SERIA ESCREVER...

Meu ideal seria escrever sobre um sistema de educação igual para todos, sem desigualdade social, onde todos tivessem oportunidades e direito a esta numa universidade, onde as políticas públicas cumprissem com seu papel dando assistência àqueles que precisam dele.

Embora, nem tudo seja como desejamos,eu vou escrever sobre uma escola desigual, sem verbas, com diferenças entre a pública e privada, onde o governo não cumpri seu papel, onde entrar numa universidade, ainda, é um desafio para a classe baixa, que não são instruidos para uma consciência critica- reflexiva.

Como não custa sonhar, meu ideal seria ter uma educação digna para todos, assim, as pessoas poderiam viver sem diferenças e sendo realmente felizes.

Edijane Oliveira

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Meu ideal seria escrever sobre pessoas que vivem felizes, sonhando com um mundo melhor, sem aborrecimentos, decepções ou preocupações. Pessoas que estão sempre satisfeitas com suas vidas, em paz consigo e com os outros.

Mas, as pessoas não são iguais e vivem realidades diferentes. Seria muito bom encontrar, pelo menos, um grupo de pessoas onde tudo fosse mar de rosas em suas vidas, que não houvesse insatisfações, que vivessem em cumplicidade com seu próximo, trocando carinho, agradecendo a um favor, a um carinho, a uma palavra de afeto ou de elogio que o outro faz, que saiba pedir desculpa quando está errado, até mesmo como forma de aprendizado e crescimento. Falarei, também, de pessoas que sentem prazer em desejar ou fazer mal ao outro, alimentando-se de sentimentos como inveja, cobiça, raiva, ódio, rancor, sentimentos que prejudica a vida do ser humano, tornando-o amargo, ignorante, deixando-o cego para o amor, o afeto, o carinho, fazendo com que seu coração torne-se uma pedra, fazendo mal ao corpo, à saúde. Cito, ainda, pessoas que vivem relacionamentos sem amor, por puro negócio ou para satisfação da família e da sociedade, ignorando, completamente, sentimentos, carinhos e prazeres que um relacionamento deve proporcionar.

Como uma sonhadora, meu ideal seria escrever sobre pessoas que são sinceras, felizes, amáveis, carinhosas, satisfeitas em seus relacionamentos e de sentimentos nobres. Pessoas preocupadas em tornar a própria vida e a vida do outro mais fácil e prazerosa dando o melhor de si para que isso seja possível, mesmo que a longo prazo.

Luciene Gonçalo

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Meu ideal seria escrever sobre a educação, pois ela é a ferramenta fundamental para mudar o futuro do País. Desde cedo as crianças deveriam receber um ensino de qualidade levando esses indivíduos a se tornarem um ser reflexivo e ativo perante a sociedade. Que os políticos exercessem o seu papel de forma honesta, priorizando os recursos destinados a educação, dando desta forma suporte necessário para o bom desenvolvimento educacional no Brasil.

Atualmente a educação esta pedindo socorro, o descaso é muito grande prejudicando assim os estudantes e todos que é a favor de um ensino digno para todos, professores desmotivados e mal remunerados, escolas com estruturas físicas debilitada, muitas sem seguranças, material didático ultrapassados, alunos sem vontade de ir á escola por que não encontram nada de novo, a maioria das aulas não são atrativas, dessa forma o aprendizado se torna mecânico não cumprindo assim o seu papel que é de formar pessoas que saibam pensar e se posicionar diante dos obstáculos da vida.

O educar é um dever de todos, a família e escola devem andar unidas para que se desenvolva um bom trabalho educativo, a educação tem o poder de mudar a nossa nação se for tratada com respeito, profissionalismo dos que detém o poder, conscientização dos docentes não deixando que  problemas externos afetem o seu trabalho, o compromisso com o ensino deve vim em primeiro lugar entrelaçado com o amor a profissão. Desta forma no futuro teremos um Brasil desenvolvido que entendeu que a educação é a base de todo o processo de desenvolvimento necessário para se viver em um País justo e de qualidade educacional. 

Rose Cleide dos Santos

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A AGULHA E A LINHA
Machado de Assis


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora?  A senhora não é alfinete, é agulha.  Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa!  Porque coso.  Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você?  Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.  Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?  Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: 
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. 
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!


Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59.